terça-feira, 19 de julho de 2011

A Bruxa de Gwrach-y-rhibyn

O significado do nome Gwrach-y-rhibyn, literalmente é "Bruxa da Bruma" mas é mais comumente chamada de "Bruxa da Baba". Dizem que parece com uma velha horrenda, toda desgrenhada, de nariz adunco, olhos penetrantes e dentes semelhantes a presas. De braços compridos e dedos com longas garras, tem na corcunda duas asas negras escamosas, coriáceas como a de um morcego. Por mais diferente que ela seja da adorável banshee irlandesa, a Bruxa da Baba do País de Gales lamenta e chora quando cumpre funções semelhantes, prevendo a morte. Acredita-se que a medonha aparição sirva de emissária principalmente às antigas famílias galesas. Alguns habitantes de Gales até dizem ter visto a cara dessa górgona; outros conhecem a velha agourenta apenas por marcas de garras nas janelas ou por um bater de asas, grandes demais para pertencer a um pássaro.
    Uma antiga família que teria sido assombrada pela  Gwrach-y-rhibyn foi a dos Stardling, do sul de Gales. Por setecentos anos, até meados do século XVIII, os Stardling ocuparam o Castelo de São Donato, no litoral de Glamorgan. A família acabou por perder a propriedade, mas parece que a Bruxa da Baba continuou associando São Donato aos Stardling. 
    Uma noite, um hóspede do Castelo acordou com o som de uma mulher se lamuriando e gemendo abaixo de sua janela. Olhou para fora, mas a escuridão envolvia tudo. Em seguida ouviu o bater de asas imensas. Os misteriosos sons assustaram tanto o visitante que este voltou para cama, não sem antes acender uma lâmpada que ficaria acesa até o amanhecer. Na manhã seguinte, indagando se mais alguém havia ouvido tais barulhos, a sua anfitriã confirmou os sons e disse que seriam  de uma Gwrach-y-rhibyn que estava avisando de uma morte na família Stardling. Mesmo sem haver um membro da família morando mais  no casarão, a velha bruxa continuava a visitar a casa que um dia fora dos Stardling. Naquele mesmo dia, ficou-se sabendo que o último descendente direto da família estava morto. 
 

Esse texto é baseado no folclore da região citada.

Flores Anunciando a Morte

Conta-se que uma moça estava muito doente e teve que ser internada em um hospital. Desenganada pelos médicos, a família não queria que a moça soubesse que iria morrer. Todos seus amigos já sabiam. Menos ela. E para todo mundo que ela perguntava se ia morrer, a afirmação era negada.
Depois de muito receber visitas, ela pediu durante uma oração que lhe enviassem flores. Queria rosas brancas se fosse voltar para casa, rosas amarelas se fosse ficar mais um tempo no hospital e estivesse em estado grave, e rosas vermelhas se estivesse próxima sua morte.
Certa hora, bate a porta de seu quarto uma mulher e entrega a mãe da moça um maço de rosas vermelhas murchas e sem vida. A mulher se identifica como "mãe da Berenice". Nesse meio de tempo, a moça que estava dormindo acordou, e a mãe avisou pra ela que a mulher havia deixado o buquê de rosas, sem saber do pedido da filha feito em oração. Ela ficou com uma cara de espanto quando foi informada pela mãe que quem havia trazido as rosas era a mãe da Berenice. A única coisa que a moça conseguiu responder era que a mãe da Berenice estava morta há 10 anos. A moça morreu naquela mesma noite. No hospital ninguém viu a tal mulher entrando ou saindo.

O Pirulito do Zorro

Entre uma tragada e outra, Neide olha para Emanoel deitado ao seu lado. Estavam em um quarto escuro, pequeno e úmido. Era mais um daqueles hotéis que não se cobra por dia, e sim por hora.
_Putz! Essa foi boa! Disse Neide ofegante.
_Hã? Ah! "ranrran"...Foi sim. Respondeu Emanoel olhando fixo para um ponto entre o canto mesa e o criado mudo.
_O que você quer dizer com esse "ranran"? Perguntou Neide ofendida.
_É! Foi bom! Emanoel respondeu apático.
_Seu calhorda!! Foi bom??? Eu quase morri!! Depois dessa de hoje eu mal posso me sentar!! Agora você tem o desplante de dizer apenas que "foi bom"? Gritou Neide.
_ Desculpa! É que eu estava distraído... Me deu uma vontade louca de comer alguma coisa...
_Agora eu sou "alguma coisa"??? Neide já estava ficando vermelha.
_Não é isso!! Tô cansado de comer a mesma coisa... Eu quero o "Pirulito do Zorro"!!!
Neide ficou catatônica por alguns segundos.
_O quê??? Você é gay??? Era só o que me faltava, uma "paka" na minha cama!!!
_Ô mulher besta!! O Pirulito do Zorro é aquele tablete de caramelo com coco. Explicou Emanoel.
_Aquele que se compra em qualquer botequim ou ponto de ônibus?
_É esse mesmo!!! Espera aí que eu vou dar uma saidinha e volto.
_Você vai sair às duas da madrugada para comprar um Pirulito do Zorro? Neide parecia não acreditar naquilo que ouvia.
_É isso aí! Tchau! Emanoel saiu do "suadouro" e fechou a porta.
_Já fui abandonada por um maço de cigarro, mas "Pirulito do Zorro" é a primeira vez!

Emanoel desceu as escadas e se aproximou do ancião que era uma espécie de "bombril" do Hotel (mil e uma utilidades) e perguntou:
_O senhor sabe onde eu consigo um Pirulito do Zorro agora à noite? Perguntou Emanoel.
_Ora essa!! Eu não sabia que era esse o nome agora... Bem, atrás do armazém ao lado tem uns mexicanos vendendo isso que o senhor quer. Respondeu o bom velhinho.
_Hã? Pode deixar, o senhor não entendeu bem o que eu quero. Mas obrigado mesmo assim! Emanoel saiu com um sobretudo preto, pois além do frio, estava chovendo um pouco.

As ruas estavam completamente vazias, a chuva era fraca mas era gelada como gelo e parecia cortar a carne como faca. Emanoel andou por um bom tempo e parou sob uma marquise e pensou a respeito. O seu desejo por um Pirulito do Zorro aumentava cada vez mais, estava começando a sentir dependência física, como se ele fosse um viciado em Crack. Emanoel tentava imaginar onde conseguiria achar um lugar aberto a essa hora, e que além disso, vendesse a tal guloseima. Descartou logo os pontos de ônibus, já que nesse horário praticamente não havia mais circulares e, portanto, os vendedores ambulantes estariam em casa. Ele só tinha uma saída: continuar a busca.
Emanoel encontrou quatro botequins abertos pela cidade; todos refúgios de bêbados, drogados e prostitutas. Mas a busca não rendeu frutos, pois ao mencionar aos balconistas o artigo de sua ânsia, teve vária decepções. No primeiro "inferninho" foi ignorado; no segundo foi confundido com um gay; no terceiro foi ameaçado com uma garrafa de cerveja e no quarto "pé de porco", foi questionado onde estaria a câmera de televisão, pois o barmam achou que se tratava de uma brincadeira de programa de auditório.
Emanoel estava ficando desesperado, estava começando a ver "miragens" no meio da rua. Em uma das visões, ele via nitidamente um homem andando com uma caixa de papelão na cabeça enquanto levava em sua mão quatro Pirulitos do Zorro e gritava com toda saúde: "Olha o Pirulito do Zorro dona Maria!!! Um é trinta, quatro paga um Real!! Chora neném que a mamãe compra e o papai paga!! É gostoso, é nutritivo e a criançada gosta!! Papai tá na merda, mamãe tá na zona e as crianças se divertem!! Olha o pirulito caramelado do Zorro!!"
Emanoel só pensava na saborosa sensação de sentir aquele gosto açucarado e caramelado em suas papilas gustativas, enquanto aqueles deliciosos "fiapos" de coco queimado arranhavam seu céu da boca. Ele estava ficando louco e já desistindo de sua busca pelo famigerado Pirulito do Zorro, voltava para a "casa de tolerância" onde Neide ainda o esperava, já que ele ainda não a pagara pela "prestação de serviço". Emanoel andara pela cidade durante horas e seus pés estavam lhe matando. Só agora ele notou que estava apenas de meia. No caminho de volta, Emanoel pensou em várias insanidades, dentre elas: arrombar a bomboniere "Mel na Chupeta" numa atitude desesperada pelo "Pirulito Perdido", mas a fadiga e a incapacidade de organizar seus pensamentos o impediram de tal torpesa. Já estava quase amanhecendo.
Quando se aproximava do "Hotel Monza" (era esse o nome do "suvaco de cobra"), Emanoel notou que estava passando atrás do tal armazém que o bom velhinho mencionou. Emanoel parou e ao olhar de soslaio, notou realmente que haviam três homens de aparência hispânica no meio da escuridão (não foi difícil reconhecer o grupo étnico dos rapazes na escuridão, já que estes usavam "sombreros").
_Que passa "miguelito"? Perguntou o mais gordo.
_Nada não...estou apenas me perguntando o que três mexicanos de sombrero estariam fazendo aqui a essa hora.
_Que foi gringo? Não gosta do modelito de nossotros? E além do mas, estamos laboriando!! Respondeu o mais velho.
_Vocês estão trabalhando? O que vocês fazem? Perguntou Emanoel que já estava começando a ficar irritado como "portunhol" dos imigrantes.
_Nossotros somos comerziantes, vendemos o que ustedes quieres. Respondeu o mais alto
_Não obrigado, não uso drogas. Disse isso enquanto pensava numa deliciosa barra de coco caramelado na ponta de uma palito de madeira.
_Pinche coyote cabron!!! Yo non viendo drogas!! Que pensas?? Meus hermaños e yo vendemos "Pirulito del Zorro"!!!! Respondeu o mais velho.
Emanoel mal podia acreditar naquilo que aquele "cucaracho" estava dizendo. Não era possível.
_É verdade??? Eu não acredito!! Andei a noite toda atrás do pirulito que estava ao lado do meu Hotel!!! Se aquele velho cretino não fosse tão..tão..velho! Eu teria acreditado nele... Ei!! Quero todos os pirulitos que vocês têm. Todos!!!! Eu pago o que vocês quiserem, mas me dêem eles agora!!!!. Disse Emanoel com os olhos arregalados e tremendo, quase babando.
_Xi hombre! Tengo que lhe dar una má notícia. Non temos mas, há poucos minutos um moleque chamado Chaves apereceu e comprou a nuestra última arroba de Pirulito del Zorro. Mas si lo señor quizeres, tengo um "Pirulito del Fofão", da Dizzioli, que es muy bueno!! Disse o mais gordo, mal sabendo ele que seriam suas últimas palavras (gritos não contam).

A cena que se seguiu não pode ser relatada na íntegra, tamanha foi a falta de desrespeito ao ser humano, a vida e ao seu criador. A selvageria foi tão grotesca e abominável, que o incidente causou uma séria crise diplomática entre Brasil e México, levando aos dois países a cancelarem todos os jogos de futebol entre as duas seleções. Comparado ao acontecido, um bombardeio de Napalm em uma creche seria apenas um mero acidente desagradável. Só podemos dizer que Emanoel ao ouvir aquilo, que seu precioso Pirulito do Zorro não existia mais naquele plano de existência, se jogou sobre "los três amigos" e começou a destrinchá-los com uma fúria tão louca, que foi difícil para os bombeiros separarem os corpos do asfalto. O mar de sangue que se formou nos fundos do armazém foi tão significativo, que o beco hoje é conhecido por "Chapolim Colorado".
Emanoel vive hoje em um hospital-presídio de segurança máxima onde recebe apenas uma dose diária de suco de tamarindo na veia.

P.S.: Neide se casou com o bom velhinho do Hotel a adotou o menino Chaves como seu filho.

O Aviso

Minha cunhada estava entrando no último mês de gravidez e viajou com minha sogra para o interior de Minas Gerais.
Fizeram uma parada no caminho e ao verem uma capela de Nossa Senhora Aparecida se dirigiram para lá para orar. O lugar era ermo, destas capelinhas de beira de estrada com uma bica.
Passados alguns minutos, das beiradas do altar da Santa começaram a subir espirais de fumaça branca que depois foram sendo puxadas de volta, desaparecendo como se tragadas pelo próprio altar. Elas ficaram assustadas e resolveram ir embora.
Em casa todos concordaram que devia ser alguma espécie de aviso.
O fato é que minha cunhada perdeu o bebê no momento do parto.

A Subida

No Brasil, no interior do estado de Minas Gerais, existe algo que dizem ser o "relógio para o fim do mundo". A origem de tal Lenda se encontra numa fazenda no distrito de Monte Verde. Essa fazenda , que remonta ao século XIX, no  período do Segundo Império,  foi uma das maiores produtoras de café da região e  tinha um grande número de escravos negros. Dentre as várias lendas da região, sempre envolvendo almas penadas dos escravos mortos pela crueldade de seus senhores, uma delas se destaca pelo seu modo sutil e aterrorizante.
O Senhor do Cafezal, que era um homem muito rico, possuía um belíssimo Casarão. O Casarão ficava no alto de um platô, dando um maior aspecto de imponência visto da estrada. Tinha dois andares, num total de 36 cômodos, um "pé direito" de 3 metros e uma varanda de vinte metros na frente do Casarão. Realmente era um símbolo de poder e riqueza. Mas para seu dono algo estava faltando. Na varanda havia uma grande parede lisa e branca, que para o fazendeiro, deveria ser ocupada por um afresco que desse mais beleza ao Casarão.
Mas não era uma tarefa fácil, pois havia poucos bons pintores de afrescos no Brasil Imperial e os poucos estavam com trabalhos no Rio de Janeiro, Salvador e Ouro Preto.
Certo dia, o feitor de escravos da fazenda disse ao senhor que um dos escravos era um ótimo pintor de afrescos no Haiti antes de ter sido trazido para o Brasil no começo do século. Interessado em saber que havia um artista em sua senzala, o Senhor mandou chamá-lo. A conversa não demorou mais do que dois minutos.
_Negro!! Quero que você pinte um afresco na varanda da Casa Grande...e que seja bem bonita.
O velho escravo assentiu com um baixar de cabeça.

_Pinte uma paisagem, ou uma cena agrícola... Você sabe o que é isso?
O escravo repetiu o movimento.

_Ótimo, agora saia!
Na manhã seguinte o fazendeiro viajou para o Rio de Janeiro e disse ao escravo que queria ver o afresco pronto quando chegasse de viagem. O velho tratou logo de começar seu trabalho.
O resultado foi maravilhoso. O escravo pintou com uma técnica barroco-impressionista (o termo não é meu) aquilo que apresentava uma mulher negra com uma trouxa de roupa na cabeça subindo a estrada que a levaria até um Casarão. Qualquer pessoa que olhasse com cuidado, perceberia que aquele lugar era a própria fazenda e dizem que aquela mulher era a própria esposa do escravo. Ela lavava as roupas da Casa Grande no rio e fazia aquele trajeto todos os dias.
Quando o senhor voltou alguns dias depois, uma onda de ódio tomou conta do fazendeiro.
_Como aquele negro desgraçado foi pintar uma negra fedida na varanda da minha casa???
Como retaliação de tal ato, o senhor mandou espancar até a morte o escravo pintor e sua musa inspiradora. Os dois morreram no tronco no meio do pátio da fazenda na frente de todos os outros.
O fazendeiro tomou a decisão de na manhã seguinte arrancar o desenho à marteladas. Mas na manhã seguinte o fazendeiro apareceu misteriosamente morto em sua cama, deixando todos amedrontados. Sua esposa e filhos, temendo que aquilo fosse uma maldição, mudaram-se para o Rio de Janeiro e nunca mais voltaram.
Mas o mais espetacular é que segundo as testemunhas que viveram todos os acontecimentos, o desenho na  parede é uma contagem até o final do mundo. O desenho original mostrava a mulher negra no começo da subida até o Casarão. Hoje, qualquer pessoa que visitar a fazenda, verá que a mulher se encontra um pouco acima da metade da subida.
Dizem que a mulher sobe um pouco a cada dia e só com intervalos muito grandes de tempo pode-se perceber a sua lenta subida. Hoje existem marcas com datas no desenho mostrando a progressão da escrava; assim que ela atingir o Casarão - dizem -  será o final do tempos. Os atuais donos da fazenda não moram no Casarão (que hoje está em ruínas) e evitam o local . Mas os colonos visitam o local sempre para rezar e pedir perdão à alma da mulher que morreu de maneira tão violenta.

Casa mal assombrada

O ano era 1944. Carlos que antes morava em Itaperuna - RJ, iria se mudar para Natividade, RJ. Estava a procura de uma casa e depois de algumas visitas, encontrou uma que seria ideal para acomodar sua família. Ao sair da casa, os vizinhos o alertaram de que ela era mal assombrada pelo espírito do antigo morador conhecido como "Manoel Açougueiro". Carlos que era metido a valentão ignorou os avisos dos futuros vizinhos e a família mudou-se na semana seguinte.
Depois de um mês instalados, a mãe e os filhos começaram a ouvir todas as noites, sem falta, às 22:00 horas em ponto, batidas na porta. Quando iam atender, não havia ninguém e o portão ficava sempre trancado com cadeado. Não havia tempo suficiente para alguém bater e pular o muro sem que ninguém percebesse. Carlos que sempre chegava após às 22:00 horas, não acreditava em tal estória.
Porém um dia, Carlos chegara mais cedo em casa e novamente às 22:00 horas bateram na porta. Carlos correu até a porta e não vendo ninguém por perto, gritou aos quatro cantos:
- "Manoel, é você? Se for você mesmo, apareça."
Para espanto de todos, nesta noite, à meia-noite o neném acordou chorando e Carlos ao entrar no quarto viu um cachorro branco dentro do berço. Ninguém na casa via o tal cachorro, mas Carlos insistia em tentar bater no cachorro com um cinto e acabava por acertar o bebê.
Apesar de toda a confusão da noite, Carlos ainda duvidava de que havia um fantasma na casa. No fim de semana, na sexta-feira, Carlos voltou a gritar aos quatro cantos da casa, fazendo dessa vez, um desafio ao tal fantasma.
- "Se tiver alguém aqui mesmo, que atire essas almofadas que estão na sala para o outro quarto."
De madrugada o filho mais velho da família, que também se chamava Carlos, acordou desesperado gritando que alguém havia atirado almofadas em sua cabeça enquanto dormia.
Carlos no dia seguinte, procurou o Monsenhor que providenciou a celebração de uma missa em intenção a alma de "Manoel, o Açougueiro". Desde aquela data, nunca mais ninguém ouviu batidas na porta da casa às 22:00 horas.

O INFERNO QUE ME ESPERA

Escrevendo feito Kafka, de formas às vezes lusitana, sem desacato aos irmãos das boas terras:
- O que faz o avião a voar de costas?
- O pior foi pousar na ponte e cair no rio.
- E quanto às pessoas?
- Salvaram-se todas pelas portas de emergência.
- Ficaste aonde?
- Do lado de fora, e voando, e por toda a parte.
- Quem era o piloto?
- Aquele que escreve torto por linhas certas.
Depois de vivida a aventura, sobrevoamos morros e deixamos que os ventos nos levassem, plantamo-nos em planícies, nas terras além do mar.
- Quem cobrará os impostos se todos morrerem no dia do juízo final?
- Sempre haverá alguém a pagar a conta e outro a receber, mesmo que todos morram, o que elimina a última testemunha da história, urge que se preocupe com o agora visto o amanhã não ser computável nas vestes frias do sistema contábil.
- Arre ( e se salve um termo nordestino)! Tu falas difícil e a voz é de pouco alcance.
- Não há voz e nem som no éter. O que escutas são as emanações do que penso.
- Então do lado de cá, se nos alcança qualquer pensamento?
- Sim, somos como antenas ligadas o tempo todo.
- Por que não escuto, então, a mente de todos que nos cercam neste mundo louco a não cessar de girar?
- Tua sintonia e teu eu não comportam as ondas gerais.
- E quem és tu, que me parece sempre amigo, que vem do nada e a ele retorna?
O interlocutor fica sem resposta e me guia pela mão a mais um vôo pelo espaço reiniciando, depois de chegarmos a um tipo de palácio sem tetos ou paredes:
- Quem são aqueles que vês dançando?
Diante de nós desfila uma humanidade em trajes de diferentes matizes, sendo muitos fantasiados de modo grotesco.
- Tenho medo, digo-lhe. – e deve ter sido a pior coisa a dizer. Vi-me sozinho, sem meu parceiro de viagem a caminhar entre rostos desfigurados. Muitos daqueles possuíam mais de um braço, ou perna, com cabeças viradas ao contrário ou cabeça nenhuma. Cada um era um inventário completo de horror e naquele salão rasgado no espaço vi-me obrigado a dançar uma sombria valsa em meio a nuvens ameaçadoras e sombras que ocupavam todo o lugar.
- Caí no inferno?
Sem obter resposta algumas das figuras que me passavam suas mãos, e na falta destas qualquer parte do corpo que fosse palpável ou extensível. Diante da imundice e da sujeira pensei eu uma oração, o que sempre fazia, embora mal.
Uma luz rasgou-se em uma janela pendurada sobre o nada e por ela transpassei vindo a acordar no meio da noite sedento e confuso, guardando na retina e no espírito e sentindo no corpo o cheiro do inferno que talvez me espere.
- Tenha saúde.

Não durma!

Samira sempre teve pesadelos. Sempre. Moradora de Israel, ela achava que as guerras freqüentes em seu país fossem a razão deles. Porém, aos catorze anos, ela se mudou para Londres. E foi então que os pesadelos começaram a ficar piores. Toda noite, assim que fechava os olhos, uma criatura lhe aparecia em sua cabeça. Era de forma humana, mas completamente careca, não tinha olhos e sua boca estava costurada em um pavoroso sorriso. Era o seu guia; um dos muitos daquele lugar. E por incrível que pareça, era quem lhe fazia se sentir segura quando caminhava pela terra assustadora dos pesadelos.
A terra era cheia de gritos, horrores e ranger de dentes. Demônios sorriam enquanto espancavam pessoas. Havia cidades, como as nossas, destruídas, onde havia gente ferida correndo e implorando por suas vidas. E pior de tudo, havia o palhaço que dançava e parecia ser o único a se divertir de verdade naquela terra.
Era um palhaço incomum, é verdade. Tinha pernas de bode e a cara pintada como os palhaços.
- Eles vêm pra cá, por que merecem estar aqui – dizia ele à Samira – Mas você não merece estar aqui. Não quer vir pra cá, então não durma!
Samira sempre acordava em prantos. Freqüentou os melhores psicólogos, participou das melhores terapias, mas nada a impedia de ver seu guia e o palhaço quando dormia. Aquilo a apavorava e causou seus problemas de relacionamento. Era uma pessoa tristonha, que quase não se comunicava e estava sempre na companhia de remédios que a mantivesse acordada. Não valiam muito.
Certa noite dormiu e voltou a seguir seu guia.
- Por que sempre está rindo, se não é feliz? – perguntou ela.
O guia virou sua cara sem olhos para ela, mas nada falou. Era impossível para ele falar. Voltaram a andar no meio do caos, mas, poucos minutos depois, o guia desapareceu.
- Cadê você?
Novamente, não houve resposta. Ela começou a andar, chorando, pois tinha medo. Muito medo. Queria acordar, dizia a si mesma que era apenas um sonho, mas não conseguia acordar.
Ouviu passos. Toc, toc, toc, no asfalto da rua por onde andava. Cascos. Logo o palhaço com pernas de bode apareceu. E ria.
- Boa notícia – disse ele – Você merece vir pra cá. Vou te levar pra um passeio comigo pela minha terra.
Mas Samira correu. Seus cabelos negros e lisos voavam na noite enquanto o toc toc dos cascos a seguia. E ele assobiava, e ria, e chamava seu nome. Até que, cansada, ela caiu. O palhaço então se aproximou, gargalhando.
- Deixe-me ver esses braços.
Com suas unhas, ele cortou os dois pulsos da menina.
- Pra você vir mais rápido, amorzinho. Você tem uma missão, merece vir pra cá.
Ao ver aquele sangue escorrendo, ela gritou. E fazendo isso, acordou.
Respirou aliviada.
Mas então viu o lençol cheio de sangue. Seus pulsos estavam cortados.
Desesperada, chamou os pais. Samira foi levada a um hospital, onde deram pontos em seus pulsos. Os ferimentos foram interpretados como tentativa de suicídio. A assistência social e a polícia interrogaram seus pais, vasculharam a casa, pois ninguém acreditava que um palhaço com pernas de bode a ferira em um pesadelo.
Samira estava decidida a não mais dormir. Não queria mais voltar àquela terra onde as pessoas sofriam, onde via vultos, espíritos que riam e demônios que se divertiam. Tudo eram sorrisos naquele mundo. E os sorrisos só vinham de quem praticava o mal, pois era divertido causar dor. Por isso ela nunca mais riu.
Samira estava mudada. Cansada, mais magra, adepta de remédios com apenas dezoito anos. Não tinha fôlego pra universidade, apesar de muito inteligente.
Certo dia viu o palhaço em sua cozinha. Estava sonhando acordada.
- Vou esfaquear seus pais – ele disse, passeando em volta do fogão – e vai ser divertido. Você tem problemas, vão colocar a culpa em você. Vai ser divertido, não vai?
Samira chorou. Subiu para o banheiro, abriu o armário de remédios e engoliu três potes de pílula. Fechou os olhos na banheira e nunca mais acordou.
Seus pais pensaram que a filha depressiva finalmente fora bem sucedida em sua tentativa de suicídio e se culparam. Mas concordaram que ela finalmente estava em paz.

Ledo engano.

Estou no mundo dos pesadelos agora, com medo. Trancado em um quarto, com alguma criatura estranha arranhando a porta na tentativa de entrar. Tenho medo. O palhaço diz que mereço estar aqui, pois vim para escrever o que vejo da minha janela.
E da minha janela vejo espíritos que brincam. Vejo mortos que andam; alguns até conhecidos meus. E vejo Samira. Ela veio me contar sua história há alguns dias agora que vaga pela terra dos pesadelos. Era bonita da primeira vez que a vi, mas depois me apareceu careca e nua pedindo que eu a ajudasse. Não podia fazer nada; expliquei que eu aparecia ali apenas quando dormia e não conseguia sair do quarto.
Alguns dias depois eu a vi sem seus olhos.
- Eu quero ver – ela gritava em pânico – preciso da luz, da luz...
Logo depois ela me apareceu novamente com a boca costurada num insano sorriso eterno. Nunca mais falou.
Mas isso faz muito tempo.
Hoje ela anda por aí, de qualquer jeito, acompanhando crianças que por alguma razão vão parar nessa terra e confiam nela como um guia. As crianças não sabem, mas confiam nela por que ela já esteve em seus lugares um dia. Mas duvido que hoje Samira se lembre de quem foi. Pra mim ela já esqueceu e se acostumou a ser mais uma criatura dessa terra terrível.
Eu quero ir embora.
Não mereço estar aqui descrevendo toda essa dor.
Só posso dar um conselho... Não durma!

Toc... Toc... Toc... Por que ele sempre tem que aparecer quando fecho os olhos?
Fim  

Morto de Olhos Abertos

Em uma cidade do nordeste morreu um pai de família muito querido.
A viúva mandou chamar a única fotógrafa da cidade para tirar fotos do morto para poder colocar no cemitério.
A fotógrafa ao chegar ao velório viu o morto dentro do caixão e começou a fotografá-lo. Para seu espanto, toda vez que olhava pelo visor da máquina fotográfica via o morto olhando para ela com os olhos abertos. Quando tirava a máquina fotográfica de sua frente, olhava para o morto e o via com os olhos fechados. Várias fotos foram tiradas e, quando reveladas mostraram que realmente o morto a via com os olhos abertos.

Dormindo Com...

Aconteceu comigo em 1991. Eu fui com alguns amigos passar o fim de semana numa fazenda centenária em Cataguases-MG.
Ela era cheia de objetos antigos e estranhos, fotos de antepassados e cômodos que não eram abertos há anos.
Durante todo o dia molecamos com o nome do antigo coronel falecido, que havia sido o proprietário da fazenda e avô de um dos meus amigos. Qualquer ruído que ouvíamos, dizíamos logo: - Sai pra lá, Coronel! Olha o Coronel aí! - sempre em tom de galhofa. Quando foi anoitecendo, um ou outro fato esquisito acontecia de vez em quando, tipo ruídos sem explicação e lâmpadas que se apagavam e acendiam sozinhas. Até o pai dele, que mora lá, parecia assustado às vezes, e nos contou coisas que havia presenciado, uma delas o fato de volta e meia ouvir pela manhã ruídos de talheres e vozes na sala de jantar(que fica em frente aos quartos) e ao ir até lá não encontrar ninguém, nem nada sobre a mesa.
Pois bem. O pior veio quando fomos nos deitar. Fiquei num quarto com algumas amigas; trancamos a porta e elas imediatamente caíram em sono profundo. Isto foi por volta da meia-noite. De repente, a maçaneta da porta começou a ser balançada fortemente, como se alguém quisesse entrar. Meu cabelo ficou em pé e eu disparei a rezar. Só que a cada frase do Pai-Nosso que eu dizia, vozes me remedavam com zombaria. Eu tremia e suava como vara verde. Chamei minha amiga na cama ao lado mas ela não acordou. A sensação que eu tinha era de que o quarto estava cheio de presenças. Isto durou a madrugada inteira e somente quando o relógio antigo da sala soou 5 badaladas eu apaguei de exaustão. Fui a última a me levantar na manhã seguinte, e quando o pessoal me perguntou que cara era aquela eu narrei o acontecido. O meu amigo, que era o neto do Coronel nos contou então que aquilo já havia acontecido com outro amigo dele. Ele levantou pela manhã e o rapaz estava sentado no capô do carro, só esperando ele levantar para ir embora imediatamente. Não havia dormido a noite inteira e jurava nunca mais voltar lá. Eu também não.

A Casa Mal Assombrada

O ano era 1944. Carlos que antes morava em Itaperuna - RJ, iria se mudar para Natividade, RJ. Estava a procura de uma casa e depois de algumas visitas, encontrou uma que seria ideal para acomodar sua família. Ao sair da casa, os vizinhos o alertaram de que ela era mal assombrada pelo espírito do antigo morador conhecido como "Manoel Açougueiro". Carlos que era metido a valentão ignorou os avisos dos futuros vizinhos e a família mudou-se na semana seguinte.
Depois de um mês instalados, a mãe e os filhos começaram a ouvir todas as noites, sem falta, às 22:00 horas em ponto, batidas na porta. Quando iam atender, não havia ninguém e o portão ficava sempre trancado com cadeado. Não havia tempo suficiente para alguém bater e pular o muro sem que ninguém percebesse. Carlos que sempre chegava após às 22:00 horas, não acreditava em tal estória.
Porém um dia, Carlos chegara mais cedo em casa e novamente às 22:00 horas bateram na porta. Carlos correu até a porta e não vendo ninguém por perto, gritou aos quatro cantos:
Manoel, é você? Se for você mesmo, apareça.
Para espanto de todos, nesta noite, à meia-noite o neném acordou chorando e Carlos ao entrar no quarto viu um cachorro branco dentro do berço. Ninguém na casa via o tal cachorro, mas Carlos insistia em tentar bater no cachorro com um cinto e acabava por acertar o bebê.
Apesar de toda a confusão da noite, Carlos ainda duvidava de que havia um fantasma na casa. No fim de semana, na sexta-feira, Carlos voltou a gritar aos quatro cantos da casa, fazendo dessa vez, um desafio ao tal fantasma.
Se tiver alguém aqui mesmo, que atire essas almofadas que estão na sala para o outro quarto.
De madrugada o filho mais velho da família, que também se chamava Carlos, acordou desesperado gritando que alguém havia atirado almofadas em sua cabeça enquanto dormia.
Carlos no dia seguinte, procurou o Monsenhor que providenciou a celebração de uma missa em intenção a alma de "Manoel, o Açougueiro". Desde aquela data, nunca mais ninguém ouviu batidas na porta da casa às 22:00 horas.

Entrega Especial

O nosso natal de 1990 foi marcado por um fato terrível. Meu irmão de apenas 17 anos, que sempre foi tão amigo e companheiro, cheio de vida e planos para o futuro, brincando com uma arma calibre 32, que ele pensava que estivesse totalmente descarregada, disparou fatalmente contra seu ouvido direito, tendo morte cerebral imediata.
Alexandre era seu nome. Meu aniversário seria no dia 1º de janeiro e como ele viajaria com sua turma para o litoral capixaba, havia combinado com minha mãe que ele mandaria fazer uma faixa para colocar em minha rua e me mandaria um bouquet de flores. Mas ele não teve tempo...
Éramos muito unidos e eu sofri muito. Em poucos dias perdi mais de 8 quilos, me afastei do meu emprego e o mundo parecia ter desabado em minha cabeça. Faltava apenas um mês e alguns dias para o meu casamento... e ele, meu irmão querido não estava ali para compartilhar aquele momento tão feliz e importante em minha vida.
No dia 1º de janeiro, minha mãe e meu avô rodaram metade de Beagá em busca de um bouquet, e em nome do Alexandre, eles me deram lindas rosas brancas. Mas, no meu íntimo, sem querer ser mal agradecida, não me sentia feliz.
No dia seguinte fui me despedir de minha mãe e meu outro irmão que viajariam para o interior. No caminho um motoqueiro me pediu uma informação. Com medo, me afastei e respondi que não sabia. Sem tirar o capacete, ele me falou:
Menina, me mandaram aqui! Diziam que você precisaria de mim e me mandaram entregar essa flor... Seja feliz!
Ele me deu a flor singela, flor que não é comum aqui em Minas Gerais, e antes que eu pudesse agradecê-lo, ele foi embora e nem vi em que direção ele partiu.
Fiquei muito feliz, porque para mim, foi o último presente que o Alexandre mandou para mim.

O Baile

Era um sábado à noite... O baile iria começar às 23:00 hs. Todos chiques, bem arrumados, vestidos para uma noite de gala. Mulheres lindas, homens charmosos.
Richard tinha ido ao baile sozinho. Não tinha namorada, apesar de ser muito bonito. No baile conheceu uma moça muito bonita que estava sozinha e procurava alguém com quem dançar.
Richard dançou com ela a noite toda, e conversaram por muito tempo. Acabaram se apaixonando naquela noite, mas tudo só ficou na conversa e no romantismo. No final do baile, Richard prometeu que levaria a moça embora, mas de repente ela sumiu. Ele procurou-a por todo o salão por muito tempo. Como não encontrou, desistiu e foi embora.
No caminho para sua casa, ainda muito triste, ele passou em frente ao cemitério e viu a moça entrando lá. Desconfiou do que tinha visto... suspeitou que fosse o cansaço e que estivesse sonhando.
Quando Richard chegou em casa, ele não conseguia dormir, nem parava de pensar na cena que tinha visto da moça entrando no cemitério.
Quando amanheceu o dia, Richard não se conteve e foi ao cemitério. Estava vazio e ele não encontrou ninguém. Passando por um dos túmulos, ele encontrou a foto da garota, vestida como no baile. E lá estava registrado que ela tinha morrido há dez anos.
E um detalhe: Ninguém viu a moça com que Richard dançou a noite toda, a não ser ele.

O MESMO JOGO

Paulo Valença 
1
José, sorrindo, para o amigo à sua frente:
- Carlinhos já notou?
Este, surpreso:
- O quê?
Mantendo o sorriso, José diz malicioso:
- Aquela “gata” na mesa perto do balcão... não desgruda os olhos de você.
Com interesse então Carlinhos devagar, disfarçando, se volta, fitando a adolescente.
Esguia. Morena. Bonita. Sorri e ela lhe retribui com o sorriso de covinhas, que exibem os dentes alvos, certinhos, brilhantes.
- Pronto cara: “ganhou” a garota!
Conclui José, que segue a paquera do companheiro de mesa e, acena ao garçom, pedindo outra cerveja.
Fora, a madrugada envelhece com a redução de veículos na avenida e pedestres no calçadão à beira-mar, enquanto o vento frio circula, agasalhando tudo.
Logo, Carlinhos resoluto, se ergue:
- Vou falar com a menina.
- Vai lá, cara!
Sorriem coniventes, vividos, experientes em aventuras amorosas.
Carlinhos encaminha-se à mesa, onde a morena sorrindo, convida-o, numa promessa. 
2
Agora, defronte ao espelho, barbeando-se, relembra a madrugada anterior. Os olhos. O convite. O motel. As loucuras cometidas. A mordida carinhosa, no pescoço, na sensualidade da fêmea ao se despedir...
Aí percebe os dois furinhos paralelos, arroxeados ao lado esquerdo do pescoço e, ao mesmo tempo do embalo da lembrança do que curtiu, ao sorrir, também nota que seus dentes caninos estão maiores, pontiagudos. Então, pensativo, tira conclusões, encarando a sua verdade. 
3
À noite, sai no automóvel, buscando a primeira vítima, que lhe sacie o desejo... de sangue.
Os olhos analíticos buscam, buscam. Sim, a caçada inicia-se, sob a lua que alheia ao que presencia, caminha lentamente dentro de sua eterna indiferença.
O carro ganha a avenida à beira-mar.
Adiante a adolescente loura, com graciosidade caminha no calçadão.
Devagarzinho o veículo avizinha-se.
- Quer uma carona?
Voltando-se ela sorri e, à luz do poste vizinho, surgem os dentes perfeitos, brancos, de molares crescidos, pontiagudos?
- Aceito.
A porta então é aberta e o casal se afasta, irmanados na cumplicidade do mesmo jogo da busca. Da próxima vítima.

O VELHO MOE, UMA HISTÓRIA ESTRANHA, MUITO ESTRANHA - O VELHO MOE


O então chamado "velho Moe" era uma mulher idosa e caduca que morava em seu sítio perto do vilarejo de Brejo Seco. O leitor deve estar a se perguntar porque o "velho Moe" era assim chamado, já que era uma mulher? Ora ,se o leitor tivesse a conhecido teria achado que fosse homem por tal escrota que era.Em verdade vos digo que o "velho Moe" se chamava desde o batismo em um ritual de kinbanda: Rodenilda da Silva, mais tarde este nome seria mudado definitivamente para o "velho Moe".Vou contar-lhes uma história, que conta a vida, ou melhor, o desastre do "velho Moe".
Como já vos relatei, o "Velho Moe" morava em um sítio perto do Vilarejo de Brejo Seco. Não tente o leitor procurar este lugar no mapa pois nomes e lugares foram modificados (com exceção do "velho Moe") para que o escritor que vos escreve não tenha problemas com os odiosos advogados. Mas voltando à vaca fria ou melhor, à nossa história, ou melhor, à minha história, o "Velho Moe" era ezecrado pela população do lugar, em particular as crianças. O "velho Moe" era acusado de bruxaria do 71 e pedofilia pelas beatas e pelos críticos de arte do vilarejo. Mas isto não incomodava o "Velho Moe", ele até gostava, pois podia levar a sua desgraçada vida feliz.
O "Velho Moe" era dono de uma grande plantação de abóboras, plantação esta que lhe garantia sua subsistência e cobria seus gastos e caprichos.A vida do vilerejo era calma, com uma rotina desagradavelmente rotineira, falando um português claro, era um saco! Só tinha movimento no vilarejo quando havia um enterro ou quando o caminhão de sal chegava na cidade.O leitor deve estar se perguntando:
_"Esta porra de história começa ou não?
E eu vos respondo:
_Vai caramba! calma!

Certa noite, o "Velho Moe" estava andando pela sua plantação de abóboras, quando viu uma coisa inusitada. Um homem alto e uma mulher baixinha, ambos com uma lanterna na mão e sobretudo preto, passaram correndo pela plantação.Isto o intrigou um pouco, mas logo esqueceu o episódio e continuou andando. Quinze minutos mais tarde, o "Velho Moe" viu então uma coisa "realmente inusitada". Uma luz muito forte vindo do celeiro. O "Velho Moe" pegou seu facão em foi em direção ao celeiro, mas quando abriu a porta do celeiro, a luz desapareceu e tudo parecia normal.
_"Será que eu bebi demais?". Perguntou-se a si mesmo sem ajuda de ninguém.
_"Ou será que fumei um bagulho em vez da minha Santa MariJoana? É, foi isso!" E o "Velho Moe" foi para casa com a certeza de que foi uma alucinação psicotrópica qualquer, já que não era a primeira vez.

O outro dia foi o mais estranho de toda a História de Brejo Seco, o "Velho Moe" (tô de saco cheio de escrever "Velho Moe") quase teve um ataque quando viu que toda a sua plantação de abóboras havia sumido, escafedeu-se, ralô peito, rapô fora, zuô, deu pau...
O pânico deu lugar ao terror...Terror do que? do Tudo? do nada? o que é Terror? O "Velho Moe" não sabia o que fazer, ele correu por todo o seu sítio, procurou em cada canto, cada chiqueiro, cada córrego, cada gaveta, e nada de suas abóboras.
_"Onde estás abóbora? Onde estás tu? Cadê porra?! Questionava-se o "Velho Moe".

Só havia um lugar onde não procurara ainda... o CELEIRO, mas se não estavam nas gavetas, não estariam no celeiro, é improvável! Mas ao chegar no celeiro o "Velho Moe" viu uma coisa estranha, muito estranha: dezenas de corpos de crianças sem cabeça, todas!!!!!!!!
O "Velho Moe" ficou "bolado", segundos depois ele viu uma luz muito forte (cor de abóbora) lá fora. O "Velho Moe" correu para ver o que era. Ao chegar lá fora ele viu uma coisa estranha, muito estranha: no lugar das abóboras, haviam dezenas de cabeças de criança na plantação.
_ De onde viram? Não tenho idéia! Perguntara-se estupidamente o "velho Moe", além de caduco, era burro!.

Neste exato momento, o "Velho Moe" viu uma coisa estranha, muito estranha: todos os habitantes de vila estavam invadindo o sítio, todos carregavam uma abóbora não mão e uma foice na outra e gritando palavras de ordem:
_" Lincha!!! Mata!!! Pisa!!! Estupra!!! Escalpelem o "Velho Moe" feles!!! Ele roubou nossas crianças e as trocou por abóboras!!! Quero $5 de volta ou então não troco!!!!! " (este grito veio do judeu dono do armarinho).

Mais incontrolável ficou a situação assim que o povo viu a plantação de cabeças decepadas. A população ensandecida se jogou em uma caçada furiosa atrás do "Velho Moe". O "Velho Moe"- que saco- foi finalmente capturado e levado para a praça do vilarejo onde seria queimado por bruxaria e falsidade ideológica (esta acusação foi feita por um advogado, claro). A população queria sangue, e teve.
No momento em que seria acesa a fogueira, aconteceu numa coisa estranha, muito estranha: uma luz muito forte (cor de burro quando foge) apareceu na praça. Todos ficaram cegos, menos o "Velho Moe" que já sofria de glaucoma. Quando a luz sumiu, não havia mais fogueira, nem mesmo o "Velho Moe", só um envelope no lugar onde ele estava,e havia uma carta dentro do envelope, e nela dizia dizia: "Não abra o envelope!!!!!!!".
Neste momento houve uma explosão tão grande que o vilarejo hoje se chama "Brejo Seco Mesmo".
Não se sabe realmente o que aconteceu com o "Velho Moe", alguns sobreviventes acham que ele voltou para o inferno de onde nunca deveria ter saído, outros acham que foram alienígenas fazendo experiências entre homem e hortifrutigranjeiros, outros não acharam nada entre os escombros e outros acham que isto é pura invenção do escritor.

Gargalhada Sinistra

...Nos arredores de Juiz de Fora morava a família Mendonça. Uma família rica e famosa na cidade. Jussara, uma estudante de filosofia da UFJF,trabalhava esporadicamente como baby sitter para os Mendonça quando estes iam à alguma comemoração .Jussara tinha necessidade de cobrir seus gastos.
Certa noite, os Mendonça saíram para um coquetel e seus três filhos ficaram dormindo no andar superior da mansão, enquanto Jussara lia um livro na sala.O silencio era sepulcral. A noite estava escura, sem lua e muito fria. Jussara estava quase pegando no sono quando de repente...
...TRIMMMMM, TRIMMMM, TRIMMM, TRIMMM, ...
O telefone toca como um alarme. Jussara deu um salto do sofá e joga seu livro longe. Ela vai correndo ao alcance do telefone." Alô? " disse Jussara com sua voz rouca. A resposta que ela ouviu foi uma diabólica gargalhada:
...HAHAHA HAHAHA HAHAHA HAHAHA HAHAHA...
_MERDA!! Um trote! Como tem gente desocupada! revoltou-se Jussara."Será que foi o Tarcísio? Não; acho que ele não seria capaz..." indagou a rapariga.
Jussara, mais uma vez ,quase adormecendo, é acordada com o tocar do telefone.
...TRIMMMMM, TRIMMMM, TRIMMMM, TRIMMMM,...
Com receio ela foi até o telefone, ficou um tempo esperando mas achou melhor atende-lo, pois poderia ser os mendonça. Ledo engano, mais uma vez era aquela voz sinistra a gargalhar:
...HAHAHAHA HAHAHAHA HAHAHAHA HAHAHAHA ...
Jussara inebriada pelo ódio gritou ao telefone.
_Sua hiena filha de uma puta...você come merda, fode uma vez por ano e ainda fica rindo da cara dos outros!!!! Ainda soltando fogo pelas ventas, Jussara bate o telefone com tanta violência, que quase quebra o aparelho.A estudante estava pensativa. A mansão ficava distante do centro e em um lugar muito deserto. Já com medo, ela decidiu ligar para a polícia.
_Alô? É do departamento de polícia? Perguntou Jussara com a voz meio trêmula.
_sim minha filha. E daqui sim; oquê você deseja?" Perguntou o tira com um ar enfadonho.
_Tem um engraçadinho me passando um trote e eu estou meio temerosa pois esta casa fica nun lugar meio sinistro... Disse a donzela quase chorando.

O policial pegou todas as informações necessárias e mandou uma rádio-patrulha rondar o local.Jussara se acalmou e foi até a cozinha beber um copo d`água. De volta na sala de estar, o telefone toca novamente e um frio polar sobe pela espinha de Jussara. Desta vez ela decide em não atender.
... TRIMMMM, TRIMMMM, TRIMMMM, TRIMMMM, ...
_Este cara já esta me enchendo a porra do saco!Pensou Jussara com os seus botões. Nem dois minutos depois, o telefone toca de novo.
...TRIMMMM, TRIMMM, TRIMMM, TRIMMM, ...
_Agora eu vou dar um basta nesta situação. Esporrou a garota pegando o fone do gancho furiosa."Aqui ou seu filho da pu..." ia dizendo Jussara quando a interrompe uma voz gritando a cem decibéis pelo telefone...
_Minha filha!!!!! Saia desta casa imediatamente. Aqui e da polícia ... nós identificamos a chamada e ela vem dai mesmo da outra linha. Fuja logo!!!

Jussara nem esperou o homem terminar e saiu correndo porta fora...
Mais tarde, a patrulha chega ao local e prende o perturbado mental no segundo andar, no quarto das crianças. O maluco tinha trucidado as três crianças e foi encontrado sodomisando a mais nova que tinha três anos. Jussara escapou por pouco. A cada telefonema era uma criança morta; ela seria a próxima. Mas depois, quem ouviria a próxima GARGALHADA SINISTRA ?